Maria Mãe de Deus

Por que o título Mãe de Deus?

No dia 1º de janeiro a Igreja celebra a Solenidade da Mãe de Deus. Neste dia, Maria é honrada por sua divindade maternal. Providencialmente iniciamos o ano, louvando e bendizendo a Mãe de Deus, Aquela que sempre passa a frente de todas as nossas dificuldades, por isso é preciso que comecemos o ano pedindo a Maria que nos ajude a viver bem.

Por que o título Mãe de Deus?

A contemplação do mistério do nascimento do Salvador tem levado o povo cristão, não só a se dirigir à Virgem Santa como Mãe de Jesus, mas também a reconhecê-la como Mãe de Deus. Essa verdade foi aprofundada e compreendida como pertencente ao patrimônio da fé da Igreja, já desde os primeiros séculos da era cristã, até ser solenemente proclamada pelo Concílio de Éfeso no ano 431.

Na primeira comunidade cristã, enquanto cresce entre os discípulos a consciência de que Jesus é o filho de Deus, resulta sempre mais claro que Maria é a Theotokos, isto é, a Mãe de Deus. Trata-se de um título que não aparece explicitamente nos textos evangélicos, embora eles recordem “Mãe de Jesus” e afirmem que Ele é Deus (Jo 20,28; cf. 5,18; 10,30;33). Em todo o caso, Maria é apresentada como Mãe do Emanuel, que significa Deus conosco (cf. Mt 1,22-23).

Já no século III, como se deduz do antigo testemunho escrito, os cristãos do Egito dirigiam-se a Maria com esta oração: “Sob a vossa proteção procuramos refúgio, santa Mãe de Deus: não desprezeis as súplicas de nós, que estamos na prova, e livrai-nos de todo o perigo, ó Virgem gloriosa e bendita” (da Liturgia das Horas). Neste antigo testemunho a expressão Theotokos, “Mãe de Deus”, aparece pela primeira vez de forma explícita.

Na mitologia pagã, acontecia com freqüência o fato de que alguma deusa fosse apresentada como Mãe de um deus. Zeus, por exemplo, deus supremo, tinha por Mãe a deusa Reia. Esse contexto facilitou, talvez entre os cristãos, o uso do título “Mãe de Deus”, para a Mãe de Jesus. Contudo, é preciso notar que este título não existia, mas foi criado pelos cristãos, a fim de exprimir uma fé que nada tinha a ver com a essa mitologia, a fé na concepção virginal, no seio de Maria, d’Aquele que, desde sempre era o Verbo eterno de Deus.

No segundo século IV, o termo Theotokos já é de uso freqüente no Oriente e no Ocidente. A piedade e a teologia fazem referência, de modo cada vez mais freqüente, a esse termo, já entrado no patrimônio de fé da Igreja.

Compreende-se, por isso, o grande movimento de protesto, que se manifestou no século V, quando Nestório pôs em dúvida a legitimidade desse título. Ele, de fato, propenso a considerar Maria somente como Mãe do homem Jesus, afirmava que só era doutrinamente correta a expressão “Mãe de Cristo”. Nestório era induzido a este erro pela sua dificuldade de admitir a unidade da pessoa de Cristo e, pela interpretação errônea da distinção entre as duas naturezas – divina e humana – presentes Nele.

O Concílio de Éfeso, no ano 431, condenou as teses e, afirmando a subsistência da natureza humana na única pessoa do Filho, proclamou Maria como Mãe de Deus.

As dificuldades e as objeções apresentadas por Nestório oferecem-nos agora, a ocasião para algumas reflexões úteis, a fim de compreendermos e interpretarmos de modo correto esse título. A expressão Theotokos, que, literalmente significa “aquela que gerou Deus”, à primeira vista pode resultar surpreendente; suscita, com efeito, a questão sobre como é possível que uma criatura humana gere Deus. A resposta da fé da Igreja é clara: a maternidade divina de Maria se refere só à geração humana do Filho Deus e não, ao contrário, à geração divina. O Cristo foi, desde sempre, gerado por Deus Pai, do qual lhe é consubstancial. Nesta geração eterna, Maria não desempenha, evidentemente, nenhum papel. O Filho de Deus, porém, há dois mil anos, assumiu a nossa natureza humana e, foi então concebido e dado à luz por Maria.

Proclamando Maria “Mãe de Deus”, a Igreja quer, portanto, afirmar que Ela é a “Mãe do Verbo encarnado, que é Deus”. Por isso, a sua maternidade não se refere a toda a Trindade, mas unicamente à segunda Pessoa, ao Filho que, ao encarnar-se, assumiu dela a natureza humana.

Maternidade é relação entre pessoa e pessoa: uma mãe, não é apenas do corpo ou da criatura física saída do seu seio, mas da pessoa que ela gera. Maria tendo gerado, segundo a natureza humana, a pessoa de Jesus, que é pessoa divina, é, portanto, Mãe de Deus.

Ao proclamar Maria “Mãe de Deus”, a Igreja professa com uma única expressão a sua fé acerca do Filho e da Mãe. Esta união emerge já no Concílio de Éfeso; com a definição da maternidade divina de Maria, os Padres queriam evidenciar a sua fé na divindade de Cristo. Não obstante as objeções, antigas e recentes, acerca da oportunidade de atribuir este título a Maria, os cristãos de todos os tempos, interpretando corretamente o significado dessa maternidade, tornaram-no uma expressão privilegiada da sua fé na divindade de Cristo e do seu amor para com a Virgem.

Na Theotokos, a Igreja, por um lado, reconhece a garantia da realidade da Encarnação, porque – como afirma Santo Agostinho – “se a Mãe fosse fictícia seria também a carne… fictícias seriam as cicatrizes da ressurreição” (Trac. in Ev. loannis, 8, 6-7). E, por outro, ela contempla com admiração e celebra com veneração a imensa grandeza conferida a Maria por Aquele que quis ser seu Filho. A expressão “Mãe de Deus” remete ao Verbo de Deus que, na Encarnação, assumiu a humildade da condição humana, para elevar o homem à filiação divina. Mas esse título, à luz da dignidade sublime conferida à Virgem de Nazaré, proclama, também, a nobreza da mulher e a sua altíssima vocação. Com efeito, Deus trata Maria como pessoa livre e responsável e, não realiza a Encarnação de seu Filho senão depois de ter obtido o seu consentimento.

Seguindo o exemplo dos antigos cristãos do Egito, os fiéis entregam-se Àquela que, sendo Mãe de Deus, pode obter do Divino Filho as graças da libertação dos perigos e da salvação eterna.

Fonte: Livro A Virgem Maria,
Papa João Paulo II